Estava aqui pensando no quanto é difícil morar de favor, mesmo que seja com amigos muito queridos - esses dias assim, com céu cinza e chuva sem parar despertam algumas coisas, é involuntário. Não falei disso ainda e, se lembrei e fiquei inquieta, deve ser porque alguma coisa precisa sair.
O aprendizado de quem passa por uma situação dessas é enorme. Claro que deve-se estar aberto a isso. Falo das duas partes: quem acolhe e quem é acolhido.
A bondade de quem abre as portas da própria casa para receber amigos, para que passem um tempo debaixo do seu teto, que já tem regras e rotinas, é inquestionável. Esse é um ato de grandeza e, com o tempo, um treinamento de tolerância e paciência. E haja, não é mesmo? Para os dois lados, inclusive. Mas a posição de "ajudado" muitas vezes deixa a gente sem voz. Há do que reclamar, sim. Mas a situação não permite. Se adequar a rotinas diferentes não é fácil, leva tempo. Não ter pra onde ir não é legal. Depender é ruim, não importa de quem.
Sempre vai haver expectativa, e raramente o que a gente espera do outro vem. A frustração faz parte da vida, desde que nascemos, mas parece que ninguém se acostuma. É humano...
Mas aqui vai a prova de que, quando a amizade é sincera, pode superar até mesmo a convivência! rs
Nunca tive o hábito de lavar a louça sem antes tirar a comida dos dentes, pelo menos, se é que vocês me entendem. Mas fiz isso nos dois lugares onde fiquei: em um, porque me enlouquecia ver aquela pilha na minha frente e no outro porque rolava advertência no caso de louça deixada por mais de 15min na pia. Advertência! O que esperar depois? Suspensão? rs...
Tá, agora eu acho engraçado, mas não foi nada bacana. Sofri do estômago, já vinha sofrendo. E não sofri sozinha. Mais uma vez nosso estômago, coitado. Não falar as coisas acarreta em péssimas consequências. Mas, infelizmente, nem sempre conseguimos expressar nossos sentimentos da maneira correta e essa insegurança faz com que nos calemos.
Muito aconteceu em quase 9 meses. Seis num lugar e dois e pouco em outro. Como explicar que naquele onde passei menos tempo, foi o mais difícil? Não há explicação. As pessoas são diferentes. Enquanto na primeira construí uma amizade muito forte, na outra, quase uma é destruída. E por que? Bolsa "jogada" na cadeira, louça suja, coisas deixadas pela casa (calma, também não era caótico, po...). É, aprendi que isso pode, sim, ser motivo. Fiquei profundamente triste.
Ás vezes é difícil perceber claramente o mundo a nossa volta quando a mente está cansada. Quase um ano sem ter o próprio espaço deixa a gente atordoado. É como perder as raízes, os costumes, ser descaracterizado, ter que agir do jeito que esperam ou do jeito que cabe ao momento, sem tempo de ser "livre", nem mesmo quando chega cansado do trabalho e da faculdade. Muitas vezes fazer o que dá vontade ou deixar de fazer algo, por menor que seja, quando se está na casa dos outros, pode ser entendido como desrespeito, falta de consideração.
Também esperei coisas... Não tive. Normal... E o que mais eu poderia querer? Tinha um teto e estava ao lado de pessoas queridas.
Complicado. Mas o crescimento que vem depois compensa o sacrifício. Falo por mim, acolhida, e creio que isso seja válido para quem acolhe também. Não é fácil pra ninguém. Mas isso cria e fortalece laços que jamais poderão ser quebrados.
Espero que não tenha ficado nenhuma mágoa da parte de quem me ajudou e eu, bom, eu perdôo a bateção de porta (é uma coisa que me mata por dentro porque quando pequena meu pai me ensinou que a maçaneta está lá por alguma razão), as discussões que ouvi e não pude interferir, a baguncinha eterna com a qual aprendi a conviver, a impossibilidade de fazer piadas ruins, a neurose da louça e advertências (às vezes eu tava pra lavar a louça, mas tomava a bronca antes - ai, que raiva, porque fica parecendo que você não ia lavar e só lavou porque tomou a chamadinha... grrrrrrrr), a cara feia e bufante por ver que eu estava usando a máquina de lavar (me senti uma criminosa naquele dia em que tirei os tapetes pra lavar minhas roupas, que não conseguia lavar a quase três semanas porque toda vez que eu ia lavar, tinha roupa batendo). Enfim... a convivência é uma merda.
Se eu tiver que aconselhar alguém passando pelo mesmo problema, diria pra evitar ao máximo morar com os amigos. Se mata de trabalhar e aluga um mocó qualquer, se você for esperto, porque é legal, muito é construído e aprendido, mas é algo extremamente desgastante e se você não tem amigos como os meus, pode ser ainda mais difícil. HAHAHAHA
Re, Fábio, Filé, Biscoito, Lucy, Amy, obrigada pela paciência, pelo amor, pelo carinho, pelo cuidado, pelo espaço que foi dado a nós não só no apartamento, mas na vida e no coração de vocês. Eu sinto que é pra sempre e a intimidade (que também é uma merda) construída nesse tempo foi uma das coisas mais bonitas que eu conquistei nesta vida.
Ju, Adri, Ciça e Léo (o gato mais lindo e fofo do universo), obrigada pelo compromisso, pelo cuidado, pela tolerância, pela amizade e consideração. Foi pouco tempo, mas o suficiente para demonstrar o grande coração que tem essa "família" linda!
Amo vocês!